Café Cultural do Numape discute feminismo negro em Jacarezinho

Janine Cecília, Carla Aparecida de Souza e Brunna Santiago durante realização do Café Numape Janine Cecília, Carla Aparecida de Souza e Brunna Santiago durante realização do Café Numape

O Núcleo Maria da Penha (Numape) da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) promoveu um Café Cultural para debater a temática do feminismo negro. O evento aconteceu na quinta-feira, 19 de abril, na Padaria Molini’s, em Jacarezinho, e reuniu dezenas de pessoas das comunidades interna e externa da Universidade.

As falas principais ficaram por conta de duas palestrantes. A primeira foi a advogada e presidente da Comissão da Verdade e da Escravidão Negra do Brasil na OAB/SP, subseção de Ourinhos, Carla Aparecida de Souza. A segunda participação foi de Janine Cecília, do Coletivo Feminista GENI, também de Ourinhos. A mediação foi realizada por Brunna Santiago, advogada do Numape.

Na primeira palestra, Carla Aparecida de Souza tratou da importância do feminismo negro como um movimento que milita por causas específicas à realidade da mulher negra e pobre. Lutas estas que, muitas vezes, podem não se aplicar a mulheres brancas de classe média.

“Um erro que às vezes reproduzimos é universalizar o feminismo. Essa universalização não é benéfica para o movimento, pois as pautas quase sempre são distintas! É preciso que as mulheres se engajem sim no feminismo, mas que elas entendam qual é a demanda pela qual elas estão militando. Que direitos elas estão almejando e que tipo de violência elas estão combatendo”.

Carla acentua que a luta de todas as mulheres tem semelhanças, mas as abordagens precisam ser diferentes. “Enquanto algumas mulheres, especialmente as de classe média, estão lutando para ter os mesmos salários dos homens e pelo direito de ter uma maternidade que possa ser conciliada ao trabalho, as mulheres negras pobres estão lutando para ter o direito de trabalhar sem a permissão do marido, ter creches para deixar seus filhos e, até mesmo, lutando para que seus filhos não sejam mortos nas ruas”, defende.

Janine Cecília vem de um Coletivo que representa uma vertente crescente dentro do Feminismo: o Interseccional. Para ela, as mulheres sofrem opressões múltiplas que se interseccionam: a violência de gênero, a violência de raça e a violência de classe.

“O racismo em nosso país é estrutural. Ou seja, ele está inserido de forma sistêmica em todas as camadas da nossa sociedade, até mesmo em nós mesmas, negras”, assevera. Janine acentua que quando se vê mulheres negras bem-sucedidas, não é uma realidade comum. “São a exceção da exceção - e são usadas como referência, como quem diz: ‘todas podem chegar lá’. Mas na verdade, a gente sabe que o sistema não é feito para a gente chegar lá, mas sim, para achar que pode. Por isso, nossas ações têm que se voltar para mudar as estruturas e não a superfície”, ressalta.

Diálogo que dá frutos

Depois das falas, veio o debate. E o público participou com perguntas às palestrantes. Uma das questões veio da estudante de Ciências Biológicas da UENP, Brunna Eduarda Reis, que perguntou sobre a relação entre o feminismo e a luta de classes. A acadêmica elogiou o evento e destacou a iniciativa do Numape em debater os temas.

“Mesmo acompanhando o tema de perto, essa discussão levantou questões que me levaram a querer perguntar. Esse espaço dentro da Universidade para debater assuntos tão importantes precisam ser valorizados, tanto pela comunidade acadêmica, como por toda a sociedade”, diz.

A discussão é um dos grandes benefícios do evento, segundo o coordenador do Numape, professor Fernando Brito. “Todo assunto que está relacionado ao trato com as minorias merece ser discutido. E se é discutido, sempre tem quem se interesse”, pontua.

A mediadora da mesa, Brunna Santiago, comenta que eventos como o Café ajudam a consolidar o trabalho que o Numape vem desempenhando desde janeiro. “Com vozes tão distintas e tanta gente participando, a gente consegue perceber que o nosso trabalho tem apoio da comunidade, o que nos fortalece”, relata.

A advogada do Núcleo, Layana Laiter, afirma que debates ajudam a fortalecer a consciência da comunidade e previnem contra a violência. “Quando o aspecto da prevenção ganha força, as mulheres passam a perceber que têm instrumentos jurídicos que as defendem, que elas não devem aceitar a violência, o machismo e a diminuição, declara.

Serviço

O Núcleo Maria da Penha (Numape) da UENP pode ser contatado pelo Facebook em https://www.facebook.com/numapejacarezinho/ 

Visto 135 vezes Última modificação: Sábado, 28 Abril 2018 11:27